sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

É pra mim?

Quem nunca se pegou lendo um texto e, de repente, parou com aquela estranha sensação de "isso foi escrito pra mim, só pode ser!" seguida por uma ânsia de ler mais e mais. E o lado racional, é claro, por um momento vai para o saco, porque não dá pra controlar o conforto que aquilo te traz, porque afinal de contas alguém parece te entender, saber exatamente o que você está sentindo, ou uma barra por que está passando.

O exemplo mais banal, de longe, é horóscopo. Vamos ao meu de hoje, sou de Aquário (e estamos sempre 1000 anos à frente dos outros):

"Sexta, 02 de Fevereiro de 2007 - A passagem de Mercúrio por Peixes, até 27/2, é um bom momento para refletir a respeito de tudo o que você considera como valores em sua vida, do material ao espiritual. Talvez você se veja mais envolvido em negócios e finanças do que o normal e, se usar bem a cabeça (o que inclui organização e planejamento), pode melhorar a situação de seu bolso."

Mais vago, impossível. Do material ao espirital? Claro, até porque tirando os dois e tudo que há no meio, o que sobra, o "oculto"? A palavra "talvez" ali no meio é boa, porque fica no 50/50, assim como o tal de "pode", até porque dão uma brecha ao autor (picareta?) caso as profecias não se concretizem. Mas que dê um passo à frente aquele(a) que nunca leu um horóscopo por ler e soltou um comentário que mostrava como aquilo batia, ou pelo menos pensou e não falou pra não dar o braço a torcer. Aquelas revistas, por exemplo, do João Bidu ou sei lá eu quem são uma tentação! É simplesmente impossível não pegar aquela que ficou jogada em cima da mesa pra dar uma espiada, ainda mais quando ela tem previsões para o ano. Eu mesmo me peguei lendo uma para mim e para a minha chefe, que dizia não acreditar mas a cada parte soltava os seus "Puta, é verdade!" ou "Caraca, preciso falar com o meu marido". E aquele tom de piadinha não me engana.

Mas, é claro, tem coisas mais sérias. Colunas de jornais e revistas, como a Folha nos cadernos Equilíbrio ou a Pensata (da internet, que tinha a coluna do popstar indie Lúcio Ribeiro), são um verdadeiro terror pra quem tem alguma aflição, porque qualquer comentário vai ressoar com o poder de um eco dentro de nós mesmos. Ontem mesmo eu "tive" disso, porque recebi um e-mail de uma pessoa que leu uma coluna da Suzana Herculano-Houzel sobre saudade e uma parte especificamente parece ter batido e bem, assim como bateu em mim, talvez com um pouco menos de impacto. O texto é interessante, ainda mais para quem passa por um momento de "crise" do tipo saudade x futuro, porque leva ao pensamento. Aprendi na faculdade que, mais do que nos fazer ver beleza estética, bons textos devem incitar o pensamento crítico, a reflexão, por mais que muitas vezes a gente leia pura e simplesmente para nos divertirmos. Que o diga meu bom e velho Homem-Aranha, fiel companheiro há pelo menos 14 anos.

Talvez mais até do que textos, músicas têm um poder impressionante sobre nós, pobre mortais com corações por vezes dilacerados. Claro que quando tudo está bem é legal, mas e ouvir Legião Urbana, The Smiths e, mais recentemente, Los Hermanos quando se tem um coração partido é tenso. Muito tenso. Versos como "E não pensa que eu fui por não te amar" ("Adeus Você") logo após o fim de um relacionamento são tortura, ainda mais quando o fim foi incerto, e Renato Russo poderia completar com um ótimo "Vai ser difícil sem você/Porque você está comigo o tempo todo" ("Ventos no Litoral"). Quem nunca chorou ao ouvir isso, se reconhecendo na música? Poderia ir aqui por horas e horas, e dar exemplos bonitinhos como "But every now and then I feel so insecure,/I know that I just need you like I've never done before" ("Help!") dos rapazes de Liverpool. Ah, não é amor? Tudo bem, sempre vai haver aquela música que fala sobre como não precisamos encarar as coisas sozinhos quando somos teimosos e não nos abrimos, ou mesmo uma música para expressar quão inútil nossa vida é (nesse caso, procure ajuda).

Filmes, por sua vez, têm o mesmo impacto, às vezes maior, porque é um caso de sentar e prestar atenção. "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças" seria um clichê aqui? Sim, sim. Mas e daí? A vida é cheia deles. Na indecisão sobre o que fazer com aquela pessoa de quem se gosta, mas não existe coragem para se declarar? Tudo bem, "Melhor É Impossível" dá conta do recado e muito bem. Não é a toa que tantas pessoas que assistem ao ótimo "O Fabuloso Destindo de Amélie Poulain" ficam com uma sensação de que todos temos um pouco dela, mesmo porque temos mesmo.

Termino isso aqui justamente com algo que me fez parar. Um texto? Não, dois simples versos de "Love Ain't No Stranger". Velharia, mas da boa. E faz sentido, com uma leve variação.

"Broken hearted people staring at me,
All searching 'cos they still believe,"

2 comentários:

rmiya disse...

Aiai, gente ansiosa não consegue ler e pensar: "depois eu comento". Portanto aqui estou para deixar um pouco do que passou pela minha cabeça ao ler tudo isso.
Pra começar, esse "é pra mim?", pelo menos pra mim (hehehe) tem vários sentidos. Poderia ser:
- "Era ISSO que eu precisava ouvir!"
- "Como você sabe que estou sentindo ISSO? Que medo!"
- "Não precisa jogar na cara!! Eu sei que estou errada."

E por aí vai... mas será que os sentimentos e impressões, embora sujeitos a identificação com músicas, filmes e livros, são todos iguais? Ou esses objetos (principalmente o horóscopo diário - veja só o meu: Você se divide entre um certo recolhimento e a plenitude em algumas relações de amizade e afeição. Pode haver muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Não diga!! Jura?? rs) são tão genéricos e tão "mal-intencionados" (eles sabem o que queremos... e fazem isso de propósito!) que a identificação é uma conseqüência óbvia?
Não dá pra saber, mas pensar nisso também criou uma questão: algum sentimento ainda está por vir? Algo novo, nunca antes sentido por ser humano algum?
Eu acho que ainda não senti de tudo, algumas coisas nem quero, mas ultimamente tenho sido obrigada a diferenciar certas coisas que ainda geram confusão nessa cabeça que não pára de pensar nunca, às vezes não é nada agradável passar por esse crescimento, e fico aqui imaginando quando é que vou ler, ouvir ou ver algo que demonstre exatamente ISSO!

Valeu pelo momento filosófico, aguarde outros mega-comentários! ;)

Manoela disse...

Hum....é pra mim?
rs...
Tem horas em que parece que tudo a nossa volta fica lembrando e relembrando algo que "devemos" esquecer...
Dá vontade de começar a lista de músicas e filmes...
Não adiantaria nada...cada música ou cada filme teria um sentido competamente diferente pra nós dois e também para cada pessoa que entrar aqui e ler seu texto e meu comentário.
Enfim...gostei do seu blog....vou frequentar!
Beijinhos

ps: falando em signo, descubre que meu signo e ascendente são diferentes dos quais eu sempre acrediter ter...Hunf!Meu mundo caiu...rs..