terça-feira, 14 de julho de 2009

Maria de Lourdes

"Billie Jean is not my lover
She's just a girl who picks that I am the one
But the kid is not my son
She says I am the one, but the kid is not my son"

-- se tivessem visto o Charles cantando Billie Jean no karaokê, com certeza ele teria repetido o feito na homenagem a Michael Jackson.

* * *

Semana passada, o mundo parou para ver o funeral/show/homenagem a Michael Jackson, o Rei do Pop (título mais do que merecido para o Elvis do pop). Foram milhões e milhões de pessoas vendo pela TV, pela internet, comprando discos, chorando, fazendo homenagens (algumas que chegavam a beirar o ridículo, convenhamos) e horas e horas e mais horas de cobertura exaustiva e repetitiva pela televisão. Chegou ao ponto de cansar, e rezar pra que enterrassem Michael Jackson de uma vez e o circo acabasse.

Daí que semana eu também fui a um velório. O primeiro da minha vida, ao menos a ponto de eu entrar e ver o corpo, caixão aberto. Sempre achei que seria o da minha avó, ou de algum amigo que porventura viesse a sofrer algum acidente, o que graças a Deus nunca aconteceu. Foi mais simples, sem música ou cantoria, porque foi da minha vizinha, uma portuguesa de 72 anos, com quem eu não tinha laço de sangue algum, nem era amigo íntimo, mas que sempre foi muito boa comigo, especialmente depois que ela descobriu o tanto que eu gosto de rabanada, e vinha me desejar a paz de Cristo efusivamente na missa aqui perto de casa. No fundo, eu sentia que ela era mais avó pra mim em São Paulo do que a minha avó que efetivamente mora aqui, ainda que por culpa minha.

A experiência como um todo foi marcante, e por mais que a vida não seja um blog, eu fiquei com vontade de escrever, colocar pra fora. Porque é uma coisa que mexe com a gente, como qualquer um que já tenha ido a um velório deve saber, por ser uma solenidade tão triste. Triste por ver que uma pessoa boa se foi, por ver que um marido viu, tarde demais, que os problemas eram sérios e desabou, triste por ver um peito imóvel e um corpo que outrora fora magrinho e delicado tão inchado, até mesmo deformado. Triste por saber que a partir dali os caminhos de pessoas que se uniram através dela talvez não se cruzem mais, justamente no momento em que deveriam seguir juntos, para dar força uns aos outros. As flores, ainda que nem tão bonitas, ganham mais vida, como que se esforçando para fazer daquele último adeus o mais ameno e belo possível.

O próprio cemitério, Parque dos Pinheiros (loooooonge que só ele), é bonito, com aquelas placas no gramado onde as covas estão. Indo até onde seria enterrada, a sensação é estranha, parece até uma falta de respeito. Sempre falamos dos olhos que a terra há de comer, mas andar sobre os mortos é demais. Não sei o que é pior: ver lápides monumentais que fomentam uma saudade que nunca passa ou aquele gramado com plaquinhas que se tornam tudo o que resta de três pessoas sob cada uma delas. Quando a gente vai ao Morumbi ver o túmulo do Ayrton Senna, é diferente, porque é menos "real" do que uma senhora que morava no 52 e que não deixa filhos. É vida real, não tem nada de especial ou fantástico.

Olhando para ela por uma última vez, pensei que aquele seria o momento quando, num filme ou num seriado com uma veia cômica, ela abriria os olhos e falaria comigo. Pensei na piada do bêbado que dizia que o que ele queria ouvir no próprio velório era "Olha, ele tá vivo!". Pensei em Brás Cubas, o defunto autor. Mas ali não teve nada disso. Teve, sim, gente chorando, gente conversando sobre amenidades, um português de 1,50m (ou algo assim) desolado, perdido, saudoso.

Eu mesmo não sei explicar o porquê de ter sido tão impactado por esse velório e ter chorado mais do que alguns parentes, mas fui. E ainda bem, porque não sei como seria ir de cara para um velório como os que eu imaginava, mesmo estando tão preparado para ele quanto estavam meus pais quando da morte do tio Jorge, um alívio diante de tanto sofrimento. O duro é que uma hora ou outra eu vou ter que saber, e espero poder protelar esse momento por mais 25 anos, que foi o quanto eu consegui ir ao meu primeiro velório.

2 comentários:

Thais Pryscilla disse...

É... Eu visualizei esse senhor aí que vc disse... Já ouvi de uma senhora de 79 anos, pouco mais de 1,50 de altura, agarrada ao caixão, dizer aos berros "Meu Deus... o que eu fiz de tão errado pra o Senhor tirar ele de mim? Era pra eu ter ido antes, eu não queria ficar sem ele, meu Deus!!!" (Minha avó...) Isso choca e nos traz mais consciencia de que a vida é curta e devemos aproveitar ao máximo...

Alessandra disse...

O pior é que, apesar de você já saber o que esperar, não fica mais fácil. É o tipo de coisa que a gente nunca está 100% preparado.