quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Olvidamento

"Fortune, fame
Mirror vain
Gone insane
But the memory remains"
-- começar um post com The Memory Remains, do Metallica, só me veio hoje. O texto vem desde sempre.

* * *

Mais ou menos citando o Homem-Aranha, minha memória é, ao mesmo tempo, minha benção e minha maldição (no caso dele, isso seria subir paredes, ter super-força, agilidade e sentido de aranha). Juro que isso não é fazer drama, ou exagerar, mas acho que as pessoas que mais convivem comigo, ou mais intimamente, já perceberam isso, especialmente quando eu faço minha cara de decepção porque a pessoa não se lembra de algo que eu me lembro, ou acho importante - geralmente só pra mim. Minha ex-terapeuta tentou e até que conseguiu me convencer de que isso tem que parar, porque eu não posso esperar que todo mundo dê o mesmo valor que eu dou a determinadas coisas, ou mesmo que simplesmente tenham uma memória boa como a minha.

Eu me lembro de detalhes, de roupas (especialmente quando eu conheço alguém, sou pior do que mulher), de falas em filmes, de falas em bar, de conversas, de datas, de rostos, de piadas, de atos falhos, de hora, de risadas, de choros. E isso tem reflexo quando eu vou contar uma história, porque eu coloco tudo que consigo lembrar, o que irrita muita gente, como a Bell, que prefere ser feliz. Deve ser por isso que eu sempre procuro detalhes pra me lembrar, até porque isso pra mim significa que eu me importo, algo do tipo. Não gasto meu tempo tentando reparar em picolé de chuchu, ou em gente chata.

Mas, além da parte da frustração, essa memória vem com um... problema. Acho que ninguém melhor do que Drummond conseguiu expressar isso, e é incrível como ele consegue ser tão preciso com tão poucas palavras. O poema chama-se Memória, e foi o primeiro que eu consegui memorizar, talvez pela significância que ele tem pra mim, porque no fim, as coisas... ficam mesmo, e pra sempre ficarão. Pro bem, ou pro mal, verdade seja dita. Tem coisas que nunca serão esquecidas, por mais que devessem o ser, para o bem de todos, e elas são... confusas? Talvez. Alegres? Muitas vezes. Dolorosas? Poucas, mas por vezes, sim. E daí, qualquer coisa as faz voltar, tanto lembranças boas quanto ruins, e isso pode ser um cheiro, uma música, uma palavra ou outra, uma imagem... ou simplesmente o vento soprando pro lado errado. O segredo é saber conviver com isso. Não que a vida deva ser calcada por isso, mas manter tudo no tangível vale a pena.

Ok, comecei a viajar aqui, pensar em outras coisas. Mas o fato é que a memória atrapalha, mas também tem o lado benção. Quantas pessoas eu não vi abrirem um sorriso por eu lembrar alguma coisa, ou mesmo ouvi um "Nossa, nem lembrava disso!" feliz, e agradeci pela HD que tá na cachola. E faço questão de continuar lembrando, até porque gosto de saber e de lembrar, por exemplo, o exato dia em que dei meu primeiro beijo (8 de novembro de 1998), a primeira coisa que eu disse pra pessoas que hoje me são especiais ou até mesmo a frase que minha mãe usou quando me viu no aeroporto, voltando dos EUA, em 2001. E gosto de me lembrar de coisas "bobas", mas desses detalhes que são absurdamente significativos (uma mensagem de ICQ que desencadeia coisas e promessas de jogar no poste, um sabor de sorvete, uma piada com nome de bairro), mas seriam tantos e pra tantas pessoas que esses eu prefiro guardar pra dizer pra pessoa, talvez até mesmo numa sober-drunk confession, porque o sorriso vai valer a pena.

A real é que eu tô mesmo conseguindo lidar melhor com essa coisa da frustração, mas uma nova tem vindo pra mim. Das pessoas eu tento não esperar mais muita coisa nesse sentido, e é melhor assim, prefiro continuar sendo eu o provider de memória, sabendo que cada pessoa tem seu jeito de demonstrar certas coisas - acho que é isso pra mim, eu tento demonstrar que gosto da pessoas por lembrar de coisinhas. *momento auto-análise* Essa nova frustração é minha sobre mim mesmo, porque pra alguém que até se orgulha da memória, é ruim não lembrar quando eu disse pros meus pais que os amo, ou mesmo lembrar quando foi a última vez que entrei pra dar uma aula e saí pensando "Como eu gosto disso!". Coisas que me são caras, mas que eu deixo passar, ou mesmo não sinto há tanto tempo que ficaram mais distantes. Pelo menos pra algumas delas eu tenho a solução, e ela só depende de mim.

O curioso é, por sinal, que eu tinha começado esse post há algum tempo. E tinha me esquecido de terminar.

5 comentários:

Ligia disse...

Essa sua memória eu bem conheço...rs
Agora, que roupa eu tava usando qdo a gente se conheceu? Essa eu quero ver..haha
Sobre a outra frustração, acho que todo mundo tem dessas, resta ter a coragem pra solução ;)
Beeeeeeeeeej

Paulo Tiago disse...

Roupa verde, bem solta, uma blusa e "bermuda", e sandálias pretas. ;) Isso no El Kabong, no sábado de Carnaval do ano passado.

Anônimo disse...

Saibas que o "não" e as lembranças não confundem só a você.
Tenho vontade de dizer um "oi" pelo menos, mas, como você disse, acho que isto é o melhor para todos.
Muitas vezes vim até aqui, esperando que o post me trouxesse alguma resposta (que antes eu achava que não queria)... Depois de meses talvez eu tenha encontrado. Acho que resposta não é a palavra certa, mas um acalento.
A memória permanece aí e aqui...
Beijos!
(tenho certeza que você vai saber quem é)

Paulo Tiago disse...

Eu teria um ou dois chutes, mas um deles seria meio... forçado. Longe, até mais do que pra onde esse Anônimo deve estar indo logo mais. Mas juro que não sei.

Babi disse...

Ótimo texto!

Nisso somos iguais. Já que em questão de música e filme passamos longe.

"Até a próxima".