quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Se juega!


O bonitão aqui do lado, chama-se Fitzwilliam Darcy, ou Mr. Darcy para os íntimos. O nome soa familiar? Então você leu Orgulho e Preconceito, escrito por Jane Austen em 1813, ou então assistiu a uma das milhares de adaptações para filmes ou mesmo TV, como essa com o Colin Firth de 1995, da BBC. Eu particularmente acho o livro um saco, bem como qualquer outra coisa que a Austen escreva, por melhor que ela o faça. É chato!

Enfim, o que tem esse homem de especial? Nada, ao menos pra mim. Mas na trama - olha o spoiler! - ele conhece uma pobre moça, Elizabeth, que tem - é claro - mais virtudes que a própria Madre Teresa, além de ser bonita e tudibom. Daí, entre vais e vens, ele se recusa a dançar com ela, depois propõe casamento, ela rejeita, o tempo passa, o rapaz muda e todo mundo fica feliz da vida, casamentos acontecem e bebês são encomendados. Nada muito diferente de uma novela das 8, mas que coisa! Claro que a primeira coisa que se nota no livro sobre Mr. Darcy é o orgulho dele, uma vez que ele é rico e foi educado pelos pais para ser assim mesmo, estar acima da "ralé", ainda que com seus iguais ele se mostre um verdadeiro gentleman. Coisas de sociedade inglesa.

O que me vem sobre o livro é justamente a mudança dele. Afinal de contas, o homem foi rejeitado por uma mulher "mais baixa", e ainda assim ele não desiste, por mais humilhante que tenha sido a rejeição, que no fim das contas é uma coisa normal, ao menos nos dias de hoje. Mas a verdade é que ele se apaixona por Elizabeth, se sente atraído pela esperteza da moça e pelos olhos expressivos que ela tem, e por isso passa por cima de muitas coisas para poder ficar com ela, como por exemplo da própria sociedade e dos seus preconceitos, mas acima de tudo do seu próprio orgulho. Quem iria atrás da pessoa que o/a rejeitou, dando um jeito de consertar as coisas e engolindo o tal orgulho?

Claro que Mr. Darcy faz isso, porque ele é um fofo - ainda que arrogante a princípio - e porque a Jane Austen é chata e adora isso. Mas podemos nós fazer a mesma coisa?

"Veja bem", quantas vezes ou mesmo quantas pessoas não ficaram a ver navios porque por algum motivo ficaram de birra, ou com "orgulho ferido", por causa de uma pessoa que talvez tenha cometido um erro? Falo mesmo de gente que por vezes toma um pé na bunda, mas não deixa de gostar, e por isso se recusa a fazer qualquer coisa pra salvar a relação. Ou mesmo de gente que deixa tudo ir por água abaixo quando o parceiro ou mesmo um amigo comete algum erro, mas é incapaz de chegar e mostrar claramente isso e tomar alguma atitude, porque não são todas as pessoas que têm a capacidade de ver a cagada que fizeram e tentar arrumar, até porque muitas vezes elas simplesmente não têm coragem, se sentem envergonhadas - como no caso do pé na bunda. Se isso fica claro, é a hora de se jogar, dar a cara a tapa, porque ninguém nunca chegou muito longe ficando parado, esperando que tudo se resolva numa solução deus ex machina, que venha do céu.

Lá pelos meus 16 anos, quando morava nos EUA, tomei uma decisão que mudou minha vida, e vem bem a calhar. Duas noites sem dormir at all me mostraram o peso que isso pode ter, e quantas chances perdemos de fazermos coisas, pra depois nos lamentarmos no "ah, se eu tivesse...", até porque o orgulho desaparece quando nos damos conta disso. Aí é fácil falar que, se pudesse voltar no tempo, daria a cara a tapa, faria Deus e o diabo pra arrumar as coisas, ia "se humilhar", que é uma tremenda idiotice. Quem falou que demonstrar sentimentos ou mesmo lutar por aquilo que se quer, seja uma amizade ou mesmo um romance, é se humilhar? Se for isso, já fui humilhado algumas vezes e disso, sim, eu sinto orgulho. Muito, por sinal. Aqueles dois dias me fizeram ver que nunca mais eu ia me arrepender por não ter feito, mas sim por ter feito. A menos que seja um filho, é um pensamento geralmente bom, e só me trouxe coisas boas.

O orkut, sempre ele, tem uma comunidade chamada "Libera o mosh!", que fala justamente disso de pessoas - no caso, mulheres em especial - que não ficam cheias de nhé-nhé-nhé e vão atrás do que querem. Isso não quer dizer que não devemos ter amor-próprio, porque orgulho é diferente e muito disso; só atrapalha, e já deve ter levado um tanto de gente pra encontrar o Criador porque o "orgulho foi ferido", por coisas completamente idiotas. O caso, minha gente, é se jogar mesmo, sem medo de ser feliz (não, não é por causa do Zezé di Camargo & Luciano que digo isso) porque voltar atrás depois não dá.

É claro que a própria Elizabeth teve de engolir o seu orgulho, porque não é só uma questão de dar a cara a tapa, mas sim de saber reconhecer que as pessoas erram, como o próprio Mr. Darcy, que pagou a língua depois. Alguém fez uma besteira? Por que não dar outra chance? Tanta gente se prende a um medo de que a história se repita que não vê que as pessoas têm capacidade de mudar, e às vezes só na porrada vão entender. Mas entendem, e daí lá vem o nosso - aliás, não "nosso", porque eu acredito que aprendi a passar por cima de muita coisa, ainda que tarde em alguns casos - orgulho dizer pra não aceitar, e fazer cu doce mesmo, querendo que a pessoa rasteje pra que possamos nos sentir bem. Mulher tem muito disso, fato. Não ligo de rastejar um pouco, especialmente se eu tiver errado, mas a outra pessoa tem que saber que tem limite, e isso não resolve nada.

O "se jogar" resolve bem mais, é fato. Mr. Darcy se jogou; Elizabeth se jogou. Eu me joguei. E você, porque não se juega? Afinal de contas, nessas horas são os audazes que levam as batatas.

3 comentários:

Alessandra disse...

O problema é que tem quedas que mutilam. Nesses casos, eu só me atrevo a me jogar se souber, ou pelo menos tiver esperanças, que alguém vai me segurar antes que eu me espatife. Porque carregar a perna torta p/ o resto da vida depois é fueda; tem que valer muito, muito a pena.

maíra disse...

Eu achei o texto muito legal!Na verdade acredito em partes no que meu amigo diz.Claro que é muito bonito falar no papel "se juega".Agora,vai fazer isso depois de tantos e tantos tapas na cara,decepções e quedas?Poxa,realmente não é fácil!Exige principalmente CORAGEM...E de certa forma alguma esperança pois muitas vezes você não tem o feed back necessário para correr atrás do que se quer com um puta estímulo.
Enfim,acho que é interessante as pessoas serem menos orgulhosas,nas nem sempre é fácil agir assim.
Beijos!!

Marta disse...

É claro que tudo o que disseste faz todo o sentido. É assim mesmo que devia ser, devíamos ter sempre coragem/ determinação/ auto-confiança para nos atirarmos e ir atrás do que queremos, não é vergonha nenhuma nem humilhação e até é uma atitude que eu admiro nos outros. Mas quando chega a nossa vez de nos atirarmos... aí muda tudo, o problema não é tanto perdoar e dar segundas chances, é mesmo medo de cair e por isso os argumentos racionais desaparecem e só cosigo imaginar um pós "jogar" em que o pára-quedas não abriu e acabo estatelada no chão, cheia de nódoas negras e toda partidinha. Eu sei, eu sei, é puro pessimismo (parece-me que tenho de ler mais umas páginas do Segredo).

Acho óptimo que não faças parte deste grupo de resistentes a saltos e que nos vás lembrando que vale a pena arriscar. Pode ser que eu me vá inspirando e passe para o lado dos corajosos.

Agora, quanto à parte sobre o Mr. Darcy, é normal e até bom sinal que aches que ele não tenha nada de especial, mas lamento informar que eu e para aí 80% da população feminina não estamos mesmo de acordo contigo!!

Beijinhos