domingo, 9 de março de 2008

Ai, que burrico!

"A ignorância é a condição necessária da felicidade dos homens"

Anatole France, em Os Deuses Têm Sede

* * *

Essa frase me faz pensar em como às vezes eu queria ser burro. Burro mesmo, não ingênuo ou qualquer coisa do tipo. Faltar inteligência.

Veja bem, não estou dizendo que sou superdotado ou alguma coisa assim, mas não nego que sou inteligente - um lampejo de auto-estima que me vem. Claro que não lembro nada de matemática, provas de lógica me tomam tempo e não sou, de longe, um Einstein. Mas, ainda assim, pessoas costumam dizer que eu sou inteligente e eu mesmo nunca fiquei na mão na hora que precisei usar a massa cinzenta... ou quase. Pelo menos, se não foi na hora, eu aprendi alguma coisa. E ando vendo que as sinapses pra relacionamentos - dos outros, é claro - andam bem rápidas.

Apesar de terem me chamado de "americanizado" em termos de filmes, de gostar muito de coisas mainstream, sempre gostei de coisas que me fazem pensar, refletir, chocassem, fossem de onde fossem... tudo bem que eu sou meio preguiçoso pra procurar filmes além do que a gente vê por aí, mas se alguém recomenda eu assisto de bom grado, tanto que tenho a "listinha" de uns 200 e poucos filmes pra ver. Música - aí não falta preguiça, na real - é mais ou menos a mesma coisa, e livros então nem se fala. Falar que gosta de Paulo Coelho perto de mim é meio um "Ugh!" na cara automático, ou mesmo tem uns livros que são legais e as pessoas vêm me falar como são bons - e pra mim tem uma diferença grande nisso.

Não consigo de deixar de associar nível crítico a inteligência. Claro que isso varia, tem muita gente inteligente que eu conheço que consegue ser mais de boa, relevar mais coisas... mas eu, não. Me irrito profundamente com novela, por ser uma merda maniqueísta que fica óbvia depois que você leu A Moreninha e Senhora, e filmes que são completamente previsíveis me deixam inquieto, no pior sentido da coisa. Fulo, até. Mas filmes passam do limite. Eu passo os filmes apontando defeitos, xingando coisas e no fim das contas me dá uma sensação de "Que merda, fui ver isso?" que me persegue. E um monte de gente dizendo "Que filme bom!" ou algo do tipo.

Às vezes me dá vontade de sentar, ver qualquer porcaria do Michael Bay e falar que é o melhor filme que vi no ano, que filmes com roteiro previsível do tipo "Michael Douglas é um homem atormentado, mas é acusado de um crime/uma conspiração, salva o dia e no fim prova sua inocência, ficando com a família" é um PUTA filme, que aqueles filmes de terror com adolescentes são bons pra caramba. De não ficar vendo erros, de sentar e curtir, aproveitar a deixa da Marta e sentar, relaxar e gozar. Parece que gente que faz isso é tão mais feliz às vezes que dá inveja.

Vontade de ler uma porcaria qualquer, igual a tantas outras coisas, e falar que o livro é muito bom. Tipo, ler O Código Da Vinci e achar que é espetacular, melhor livro que li em anos e acreditar em cada palavra sobre Maria Madalena, em vez de apontar clichês e mais clichês, como ele é feito para leitor preguiçoso, se apóia em assuntos controversos que vendem - sem tirar o mérito descritivo do Dan Brown. Ou qualquer outro best seller que vai no bonde de livros que de fato são bons e é uma coisa meio angariadora de fundos. Parece que tem gente que fica feliz com isso, e não quer nada mais que isso.

Vontade de conseguir conversar sobre Big Brother e ficar horas no assunto, ao invés de pensar que aquilo é o retrato do zoológico humano, de pessoas se rebaixando por dinheiro, de ver como o espectador claramente adora intriga, fuxico, torcer contra as pessoas mesmo e até dizer que odeia alguém que nunca viu na vida. Pra que falar sobre como tem coisa errada, como resolver alguns problemas, quando dá pra comentar o Paredão? E fazer isso com sorriso, não ser taxado de chato, ou crica.

Não estou, em hipótese alguma, dizendo que todo mundo que vê Big Brother é burro, ou mesmo que ver essas coisas te tornam um completo idiota, longe disso. É só saber o que é visto, que tem coisas pra entretenimento e coisas boas são outros 500. Mas é conseguir fazer todas essas coisas, e não ficar sendo chato, usando a cabeça pra ver como poderia ser bom, ainda que seja instintivo... a coisa ficou confusa, eu sei. Não consegui me expressar bem, mas é ser burro às vezes, e isso é bom.

Por favor, que ninguém se ofenda. Não usei exemplos pontuais, então não precisa vir ofendido achando que é "recadinho". Seja burro e não entenda.


* * *

UPDATE

Acho que, no fim das contas, eu me toquei... não é ser "burro", mas eu queria ter um momento de burrice - que não faz mal a ninguém!! - e poder curtir as coisas mais tranquilo.

9 comentários:

Karina Lima disse...

Sim, o Paulo Teágo é muito inteligente. Fico feliz quando, numa tarde modorrenta de domingo, tenho coisa de qualidade pra ler na web. Obrigada, Nsa. Sra. dos Blogs Porretas!

Beijoca,
KK

Sandro disse...

Paulo, já viu Idiocracy? Tem tudo a ver com seu texto.

Agora uma dúvida: um cara como eu, que viu Rambo IV e achou O MELHOR FILME DA HISTÓRIA DOS FILMES, é burro?

Anônimo disse...

Pois é, meu caro blogueiro, também às vezes me sinto assim, tenho meus momentos em que desejo ser menos inteligente, me confundir intelectualmente com a multidão. Chega a ser, pelo menos, mais cômodo; pensar nos confronta com uma série de verdades e, como disse a grande Clarice Lispector, "prefiro uma verdade inventada" (frase que você mesmo reproduziu no fim de sua página).
Mas persevere! Afinal, o que seria do mundo sem boas cabeças pensantes?!
E aqui vai uma despretensiosa sugestão de filme, um dos mais interessantes que ultimamente assisti: "Casa de Areia e Névoa". É a história de duas vidas que se cruzam em torno da posse de uma casa: uma americana abandonada pelo marido (e que acaba perdendo a própria casa por conta de dívidas) e um iraniano radicado nos EUA (que trabalha duro por anos e arremata a tal casa num leilão). A história é uma sucessão de tragédias que parecem não ter fim e que, em alguns momentos, nos fazem pensar que a vida não passa de um vale escuro e sombrio que teremos de transpôr. Fantástico! Final surpreendente! Adjetivos não me faltarão sobre esse filme. A primeira vez que li algo sobre o mesmo foi num livro do jornalista Zeca Camargo. Zeca viu esse filme num vôo Sidney/Cingapura e passou, como ele mesmo descreveu, pela experiência de chorar descontroladamente num local como a cabine de um avião ao assistir à película. Alugue-a (ou compre-a, R$ 12,99 nas Lojas Americanas!), você não se arrependerá!

Alessandra disse...

Dude, propaganda nos comments do blog ninguém merece!

Me occorreu que você pode sim ser meio burro as vezes. Porque, se o Paulo Tiago é sim muito inteligente, pelo que eu ouvi o Alberto não é the sharpest knive in the drawer. Basicamente, não existe excesso de racionalidade que um pilequinho não cure. Cheers!

Anônimo disse...

Alessandra,

Em primeiro lugar, não escrevi o comentário para você, e sim para o dono da página. Não a conheço e nem tenho nenhum tipo de compromisso em agradá-la. Se você ficou "mordida" por algum motivo particular (quem sabe, talvez, foi abandonada pelo companheiro, como a personagem do filme o foi), acredito que não seja motivo para descarregar sua indignação e recalques sobre um inocente leitor que arriscou tecer um comentário. Quanto à pretensa burrice que você me atribuiu, acho que sua limitação intelectual a impediu de perceber no comentário sobre a venda do filme uma mera brincadeira. Mas desconfio que isso é pedir demais de seu atrofiado cérebro. Cada um dá o que tem....
Meu caro Paulo Tiago, perdoe-me, não quero transformar seu espaço inteligente e criativo num ringue de luta com pessoas que deveriam estar lendo Cebolinha!
Abraços e continue a nos premiar com seus textos!

Alessandra disse...

Anônimo, que coincidência, porque meu comentário também não foi para você. Estava falando com o autor do blog, que é meu amigo. E precisa muuuito mais que isso para me deixar irritada (spam eu também recebo no meu blog o tempo todo). Aliás, achei bastante divertida a sua resposta. Você sempre fala como o Conselheiro Acácio?

Sandro disse...

Eu dormi lendo o post do anônimo.

Anônimo disse...

Sandro,

Realmente não são todos que conseguem acompanhar um raciocínio mais complexo com sentenças mais longas. Abraços!

P.S.: não sou o mesmo anonimo, sou outro, mas o cara que escreveu é brilhante, você é que é mentalmente preguiçoso....

Sandro disse...

Realmente, alguém precisa ter uma formação sólida aliada a uma tenacidade mental fora de série para entender todas as referências cultas dos comentários brilhantes do amigo anônimo. Talvez se eu passasse mais tempo lendo livros ao invés de ficar vendo Rambo e Big Brother eu seria capaz de entender o que ele quis passar neste pequeno ensaio.

P.S.: Eu também não sou o mesmo Sandro que postou, sou outro que tem o mesmo nome. Qual a palavra que as pessoas inteligentes usam mesmo? Flip, flip, flip (é o barulho que faz quando eu procuro nas páginas do dicionário) "homônimo"! É isso, eu sou um homônimo que veio tomar as dores dele.