sábado, 28 de abril de 2007

Quero um amor para as estações frias [2]

No esforço da guerra,
tiro para todos os lados,
simpatia e falas forçadas,
meu Deus, e, até agora, nada.

Uma eu já comi,
outra eu já peguei;
outras sempre quise o que sobrou eu já chutei.

Mas pooorra!...
Agora, agooora,no frio cadente do outono,
ninguém pra me dar bola?
Aaaahhh...
Pra dar bola tem de sobra,
mas no fim da história, quem sobra sou eu.
Ado, ado, ado, vai tomá no cu.


Por Daniel, em homenagem a todas as Paolas

sexta-feira, 20 de abril de 2007

70 Dias

Podem sonhos ter contagem regressiva para serem realizados?

"And he still gives his love, he just gives it away
The love he receives is the love that is saved
And sometimes is seen a strange spot in the sky
A human being that was given to fly"


terça-feira, 10 de abril de 2007

Braço Universal

Há temas que são ditos universais, como o amor ou mesmo a vingança, e sempre que se pensa nisso - ao menos em termos de literatura -, o nome de Shakespeare (vulgo 'Bill') é o que vem à cabeça de qualquer um. Afinal de contas, o que Romeu e Julieta tinham é algo que qualquer casal vai ter, igualzinho, hoje em dia, ou a vingança do mouro Otelo é também bem parecida com a de qualquer marido que se considere traído. Mas há quem discorde, pois amor é amor, sim, mas as circunstâncias, "tipos", variantes e afins fazem com que esse papo de universal meio que caia por terra. Vingança, por exemplo, é aceita em algumas culturas, não é bem vista em outras, normal. Podemos pensar em conceitos de beleza, e aí sim as diferenças saltam aos olhos. Magrelas ou gordinhas, homem peludo ou liso, bombado ou magrelo, peito ou bunda...

O que seria, então, uma coisa universal? Esse fim de semana tive um insight, pois o fato se repetiu algumas vezes, e junto com inúmeras vezes que presenciei tal coisa, me veio uma das respostas. Claro que você pode discordar, soltar um "Ah, comigo não tem isso", mas só está desculpado pessoas que são assumidamente braço (ou navalha, barbeiro, como quiser) ou aquelas que não tem habilitação. O fato é que ninguém suporta palpite quando estamos dirigindo. Não dá. Palpite (não confundir com conselhos) já é uma coisa chata - meninos hão de se lembrar de seus dias de fliperama com um chato que sabia jogar do lado - e quando se trata de carro fica pior ainda. "Abaixa o farol", "vai mais devagar", "pra que meter o pé no frio assim?", "muda de faixa" e afins, sendo que muitas vezes não estamos fazendo nada de mais MESMO (apesar de que o lance da velocidade e álcool misturado com volante são coisas sérias, e aí os tais palpites são mais do que bem-vindos; são necessários).

Quando nosso chefe nos dá uma carcada, mostrando claramente que fizemos uma cagada, tudo bem. A gente ouve, aprende e, por mais que fique com um pouco de raiva ou ressentido por ter tido nossa atenção chamada, dá até uma sensação de "que bom, agora eu entendi o que eu preciso fazer". No geral temos isso de aprender coisas novas, mas a direção tem um poder incrível, que me faz lembrar de um desenho da Disney, antigo, em que um sujeito comum e tranquilo se tornava um animal quando sentava atrás do volante, era engraçado.... uma coisa meio que de liberar o animalzinho que há dentro de nós. Mais ou menos como o Edmundo fazia nos anos 90 em campo, distribuindo porrada, ou alguns homens fazem no meio de uma briga generalizada (e dá pra não pensar em futebol?). Mesmo que a gente dê uma fechada, é CLARO que foi o filho da puta que vinha atrás que não viu que a gente ia virar, e pára de me encher que eu sei dirigir, cacete! É como se fosse uma arte milenar e cada um de nós tem suas técnicas, que só precisam de ser aparadas logo no começo, então até completar 1 ano de carteira, o passageiro tem o direito de falar.

Os pais são a pior parte, porque muitas vezes eles nos ensinam a dirigir, muito obrigado. Daí você começa, eles miguelam o carro, mas vão liberando, começando por ir buscar a avó pra ir à missa, ou compras no supermercado - nada de balada. Daí o tempo passa, você pega prática, compra o carro, paga o bendito IPVA, renova a CNH... mas eles ainda falam com você como se tivesse começado ontem. Não que sejamos pilotos profissionais, mas tem coisa que não dá, que nem o tal do "pé pesado" (ir a 60 km/h na Faria Lima é correr, claro) ou mesmo a cabeça na frente do espelho retrovisor, porque quem tem que ver não é você, ao dirigir, mas seu pai sentado no banco passageiro - claro que segurando o famoso puta que pariu, porque você não tem carta de habilitação, parece ter porte de arma.

A verdade é praticamente TODO MUNDO fica puto da vida com palpites no volante. E se for dos pais, mais ainda. Mas o negócio é simples: chegar pra mãe, por exemplo, na cozinha, e começar com uns "Abaixa o fogo" ou "Troca de boca no fogão, hein?", ou pai fazendo o IR, começa com "Colocou a poupança?" ou "Declarou o carro?". É tiro e queda, porque se ela falar "Quem tá cozinhando?", você vai ter uma resposta pra quando estiver dirigindo.

Ou então dá um jeito de eles dormirem. Não é tão fácil, mas é ótimo.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Só Por Hoje

Há tempos que essa música tá martelando na minha cabeça (desde que eu a ouvi graças ao finado shuffle), mas essa semana ela é meio que merecida. E tem um verso que cai bem justamente com o post da semana passada, e outros que caem bem com os últimos meses.
E tem gente que não gosta de Legião Urbana.

* * *
"Só Por Hoje"
(Renato Russo)

Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu espero conseguir
Aceitar o que passou o que virá
Só por hoje vou me lembrar que sou feliz

Hoje já sei que sou tudo que preciso ser
Não preciso me desculpar e nem te convencer
O mundo é radical
Não sei onde estou indo
Só sei que não estou perdido
Aprendi a viver um dia de cada vez

Só por hoje eu não vou me machucar
Só por hoje eu não quero me esquecer
Que há algumas pouco vinte quatro horas
Quase joguei a minha vida inteira fora

Não não não não
Viver é uma dádiva fatal!
No fim das contas ninguém sai vivo daqui mas -
Vamos com calma!

Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu não vou me destruir
Posso até ficar triste se eu quiser
É só por hoje, ao menos isso eu aprendi

quinta-feira, 22 de março de 2007

Errata

Nas palavras do The Bravery, "it was a honest mistake", muito bem notado pela Alê. =P A frase "eterno enquanto dure" é do Vinícius de Moraes, o último verso do Soneto de Fidelidade (mas eu prefiro o de Separação):

Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Que furada, e justo eu que tanto gosto de ler! A frase do Nelson Rodrigues é "Todo amor é eterno e, se acaba, não era amor", igualmente boa e certa. Além disso, na pressa, nem falei do Wander Wildner... ó, postagem! Tanto enrolei que ainda fiz cagada. Dá nisso querer postar com sua chefe te falando pra sair que você vai se atrasar.

segunda-feira, 19 de março de 2007

Eterna enquanto dure

Ao rever "À Procura da Felicidade", filme com Will Smith e seu filho Jaden, me lembrei de um post que queria ter feito há algum tempo, logo que li o blog de uma amiga. Não é bem uma resposta, mas até que pode servir como, apesar de o post dela ser muito bom e não precisar muito de algo assim. Além disso, foi uma coisa que um professor meu falou na faculdade que me ficou na cabeça, bem bom mesmo!


No filme, Chris Gardner diz se referindo a Thomas Jefferson e à Declaração de Independência dos EUA, que "Maybe happiness is something that we can only pursue. And maybe we can actually never have it no matter what.", pois lá está escrito que "Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade". Chega a ser interessante o ponto de vista dele, porque hoje em dia parece que ser feliz é mais do que um direito que temos, é uma obrigação, e ai de quem não conseguir, hein? Tudo gira em torno de ser feliz e, talvez tão importante quanto isso, temos que mostrar isso, sempre com um sorriso na cara, nunca triste.

Pois é, nesse ponto que minha amiga falou uma coisa boa. Assim como nós não podemos ser dignos de compaixão, pena mesmo, já que isso faria com que as outras pessoas ficassem down por nossa causa, ficar triste é um absurdo, espanta pessoas melhor do que peido de véio ou chato quando chega na roda. O negócio é estar bem sempre, rodeado de pessoas felizes. Assim, aliás, fica fácil: estar com amigos quando se está bem é tranquilo, até porque muitos desses são muy amigos. Ora, não se diz por aí que os verdadeiros amigos aparecem na hora do aperto, nas horas mais difíceis? E não são estas, geralmente, momentos de tristeza, de infelicidade? Pois é, e é justamente em momentos assim que vemos como somos felizes por termos pessoas tão especiais ao nosso redor. Então, eu pergunto: o que há de errado em nos sentirmos infelizes em alguns momentos e demonstrar isso? Isso não faz de mim ou de você alguém pior, alguém que deve ser evitado, mesmo porque é notório que pessoas crescem depois de situações como a morte de um parente, ou mesmo um coração partido.

Outra coisa que me impressiona é como a felicidade se tornou um bem material, como se fosse algo que devessemos comprar ou ter, e daí concordo com Chris quando diz que talvez não podemos ter a felicidade. Há por aí mil e um livros que tratam da "arte da felicidade", ou o seu segredo, ao mesmo tempo que temos uma mídia que nos mostra como comprar um EcoSport ou usar determinada marca de roupa é o que realmente nos faz feliz. Claro que se sentir bem ou realizar um sonho são parte da felicidade, mas o que me deixa bobo é apartamento: quem nunca viu algo do tipo "Sua felicidade em 48 prestações, sem entrada!" que vem naqueles papéis entregues em semáforo (se você for de SP, nos faróis sem mar)? E, nesse sentido, fica claro que pra se conseguir a tal felicidade, é preciso ser algo grande e caro, geralmente, até porque a CVC vende sonhos, não pacotes turísticos ou passagens aéreas. Há até quem precise fazer compras pra "aliviar" o stress, e isso traz uma felicidade instantânea. Digo isso como colecionador de CDs e ex-morador dos EUA.

Será que é tão difícil para nós vermos que para sermos felizes precisamos de pouco, e que ficarmos claramente tristes faz parte disso? Eu quero, sim, ficar cabisbaixo, triste, amuado, deprê, down, porque sei que isso me ajuda. E se você for meu amigo, vai saber ficar do meu lado e quem sabe sofrer comigo, pra ser feliz ao meu lado em outros momentos. E não quando eu comprar meu carro novo e me mudar para o Alto da Lapa, mas com as coisas simples: ler um livro, ver um bom filme, dar risada de si mesmo ou do amigo, poder tomar uma cerveja junto, dar um abraço no meu pai quando ele chega bem de viagem, dizer para uma mulher como ela está bonita e ver o sorriso que brota, deitar junto com alguém e conversar, ouvir sua avó contar uma história. Às vezes, mais simples ainda: fazer com que alguém se sinta querido através de um "Tá tudo bem com você?". Quem se lembrar de "Beleza Americana" sabe do que eu estou falando.

E vai ser breve, como diria Tom Jobim ("Felicidade tem fim/Tristeza não")? Não tem problema, porque eu sei que minha procura, bem sucedida aos trancos e barrancos (bem necessários), só acaba quando eu morrer. Que seja, então, como o amor de Nelson Rodrigues: eterna enquanto dure.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Ah, mulheres!

Parabéns, mulheres, pelo seu dia!

Parabéns, mulheres, por viverem num mundo machista, que insiste em provar a superioridade masculina sobre vocês, das mais variadas formas, nem que seja à força, na base da violência. Um mundo que exalta o homem que é galinha, enquanto condena a mulher que faz a mesma coisa, como se o erro estivesse em nossos genes.

Parabéns, mulheres, por serem maioria em nosso mercado de trabalho (aproximadamente 55,8%), e ainda assim ganharem menos do que nós, homens, mesmo que tenhamos a mesma posição. Também por terem que se vestir muitas vezes como homens (ternos, por exemplo) ao atingirem cargos altos, coisa que homens não fariam.

Parabéns, mulheres, por serem exploradas sexualmente a partir de idades absurdas como 10 anos, por homens sem o mínimo de respeito por vocês e pelas vidas que vocês talvez deixem de gerar, decorrente da violência sexual. Por serem aliciadas como bonecas sem sentimentos, enganadas com promessas de vida melhor que só as levarão a um verdadeiro inferno na Terra. Por serem prometidas e vendidas como noivas em troca de dinheiro.

Parabéns, mulheres, por serem oprimidas por religiões e culturas machistas e patriarcais, que as proíbem de sentirem prazer, de mostrar o rosto, de se cuidarem e ressaltarem a beleza que há em vocês. Por serem oprimidas e obrigadas a servir maridos que, muitas vezes, têm várias esposas, como se vocês fossem algum troféu a se colecionar. Por terem de ser diferenciadas dos homens por serem "inferiores", seja aos olhos de Deus ou dos seus pares.

Parabéns, mulheres, por serem espancadas por homens grosseiros e ignorantes, que provam sua masculinidade castigando um ser tão delicado quanto vocês. Seres que são naturalmente lindas como flores, mas tratadas com espinhos, por homens que se aproveitam de sua força física para se impôr quando falta o diálogo, tão necessário em qualquer relação.

Parabéns, mulheres, por verem praticamente ignoradas e/ou contestadas todas as culturas e religiões antigas que as idolatravam e as colocavam como centro de uma socidade, por serem mães e genitores, provedoras de vida, de beleza e de harmonia. Por vivermos uma ideologia que planta nas pessoas os "lugares" de homens e mulheres, como caçadores e caças, por exemplo, ou que nos dita o que pode e o que não pode ser feito - sempre para vocês, já que nós podemos praticamente tudo.

Parabéns, mulheres, por terem um dia celebrado na mesma data que outras de vocês foram queimadas vivas por lutarem por direitos. Por terem um dia em que muitos de nós, homens, as tratam bem para, em seguida, voltarmos ao nosso mundo "normal", onde vocês voltam a ser o grupo que merece um dia especial.

A vocês, uma flor e a minha mais profunda admiração, que não dura 24 horas, mas 365 dias por ano. Isso vale muito mais do que um parabéns vazio e muitas vezes hipócrita, num dia no mínimo dúbio. Vocês merecem o dia 08 de março, de abril, de junho e todos os outros números de 01 a 31 que compõe nosso calendário.


sábado, 3 de março de 2007

Martin, Santoro e nós

"So I look in your direction,
But you pay me no attention,
And you know how much I need you,
But you never even seen me"


Segunda-feira agora, dia 26/02, foi um tipo de ressurreição após a via crucis e a crucificação, que atendem pelos nomes de "4 horas de fila na chuva" e "pagamento da fatura do Visa", respectivamente. O show do Coldplay, em outras palavras, 4 anos depois da primeira vinda dos caras ao Brasil. E, além de um puta show legal, ficaram várias coisas interessantes. E faltaram algumas outras também.

A idéia de cadeiras num show foi uma das coisas mais de girico que já vi. Me lembrou o show do Lenny Kravitz nos EUA, quando um senhor me pediu para sentar 2 vezes até eu delicadamente mandar ele ir tomar no cu e não me encher (em português), pulando como um louco ao som de "Are You Gonna Go My Way". E a Via Funchal é um lugar tão bom pra ficar em pé, mas não, alguém tinha que colocar aquelas cadeiras, e reduzir em mais da metade a quantidade de pessoas. Ou melhor, enxugar o coro, porque é incrível como todos cantam. E, curiosamente, Lenny Kravitz e Chris Martin são os dois melhores show men que tive o prazer de ver ao vivo, ficando pau a pau com Bono Vox e Alex Kapranos (do Franz Ferdinand). Não, eu não fui ver o Pearl Jam e tenho quase raiva de quem foi.

Mas uma das coisas mais engraçadas desse show foi mesmo a atenção da platéia. Em show meia-boca, a gente até entende, o pessoal fica meio distraído, bate papo, toma uma cerveja e tal. Mas quando entra a atração principal, ou mesmo antes dela, alguém rouba a cena, e esse alguém foi o senhor Rodrigo Santoro, devidamente acompanhado da namorada. Pessoas (especialmente) passaram metade do show gritando para o palco, metade gritando para ele, no mezanino, olhar pra baixo, dar um tchau ou algo assim, sendo que o cara estava na dele, curtindo o show e tocando sua bateria imaginária. Ainda assim, o Chris Martin lá, se esgoelando, e toda hora alguém olhava pra trás (eu olhava, mas pra ver a Marina Person, do lado dele). Algumas das meninas parecem inclusive terem tido um deleite maior quando ele saiu e conseguiram tirar uma foto do lado do bonitão. E daí que o Coldplay desceu do palco e tocou no canto, no meio da platéia?

O fim ainda reservou uma surpresa para nós, pobres mortais, nem tão talentosos e fofos como Martin, nem tão bonitões como Santoro. A platéia (e não foi a primeira vez que presenciei isso) berrou "Shiver! Shiver!" logo que a banda saiu, teoricamente encerrando o show. Logo me veio a lembrança de Rodrigo Amarante e Marcelo Camelo, do Los Hermanos, ano passado, dizendo que "queriam fazer coisas novas", quando pedimos "Pierrot". Calma lá, rapaz. Quem compra seus discos? Quem paga pelo show? Ah, vá tomar banho! Petulância, frescura, chame como for, e espero mesmo que um inglês branquelo tenha mostrado como se faz. Chris Martin e Jon Buckland, o guitarrista, voltaram para fazer uma versão improvisada e acústica, com letra errada, uma ou outra desafinada, mas voltaram, porque nunca tinham visto um pedido como aquele.

E eles nos atenderam, que passamos a ser os "donos" daquilo, completamente êxtasiados. Valeu cada centavo pago, tomar a chuva e ferrar com meu celular, e faria tudo de novo. O que eu podia dizer depois de tudo aquilo, e com o Santoro lá atrás? Chupa, Amarante, e obrigado, Martin.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Aos Amigos

"Ai ai!"


Autoridades presentes, professores, pais, colegas formandos e amigos, bom dia.

Sempre que vamos a uma colação de grau, já esperamos um evento meio formal, com um tanto de discursos que às vezes fazem um ou outro pai pescar ali no meio da audiência – nada, aliás, que nós não tenhamos feito em sala, fosse Literatura Brasileira ou Teoria do Texto. Mas sempre temos um discurso mais descontraído que é, justamente, aquele que vai falar da turma, contar histórias nem sempre engraçadas ou que não fazem o menor sentido, mas que deixam todos com um pouco de vergonha e até fazem brotar uma lágrima ou outra aqui e ali. Foi isso que eu vim fazer hoje, e ao mesmo tempo sinto que fiquei com a parte mais legal e a mais difícil também, uma peculiaridade da Letras. Falar dos professores, com gente tão boa como temos, fica até meio fácil, só tendo que tomar cuidado pra não babar demais no ovo do sujeito e dar a impressão que somos apaixonados por alguns deles. Falar dos pais também não tem muito erro, mas daí eu já estaria entrando nos discursos dos outros, e aí vai ter gente dormindo mesmo, porque discurso repetido não dá.

O porquê de eu estar falando isso é justamente a falta desse sentido de turma com que a Letras nos presenteia ao longo dos 5 anos – prova disso é que não somos a Letras 2002, mas acho que poderíamos dizer a “Letras ’99 a ‘03”, tamanha a salada de anos a gente tem aqui hoje. Infelizmente, não posso dizer alguma coisa sobre cada uma das pessoas aqui presentes, por mais que essa fosse a minha vontade, e por isso mesmo gostaria de estender essa homenagem não simplesmente aos colegas, ou mesmo aos formandos, mas aos amigos, sejam eles quem forem. Nossos pais nos apóiam, os mestres nos guiam (e às vezes nos reprovam), mas quem realmente está lá quando a gente precisa de um jeito que os pais não podem ajudar são nossos amigos. Você não chega chorando por conta de ex para seus pais numa véspera de prova, crente que vai ter um ombro amigo pra te consolar, quando na verdade seu amigo tem intimidade o suficiente pra te mandar pra um lugar onde não bate sol, sentar e fazer a prova. Ou mesmo quando você passa um pouco da conta numa festa, é seu amigo que vai parar de beber pra te ajudar (e isso eu sei bem) e depois vai tirar com a sua cara, mas sem ressentimentos, ou sermões, porque sabe que quando chegar a vez dele você vai estar lá. E isso tudo faz parte da vida universitária porque ela, mais do que qualquer outra fase, te ensina não só a fazer análise literária (o terror do aluno da Letras, ainda mais no primeiro ano) ou a montar árvores de análise sintática que vão ser o pesadelo de algum aluno de colegial. A gente apanha, aprende a economizar dinheiro, a cozinhar, vê que algumas coisas que seus pais dizem não fazem o menor sentido, e isso em português bem claro, e tudo isso sempre com os amigos conosco, seja nos ajudando, seja nos dando a chance de ajudar e aprender, seja descascando um mesmo abacaxi a quatro mãos e alguns palavrões. A natureza priva algumas pessoas de ter, ou melhor, de termos irmãos, e isso pode até parecer um privilégio quando você pensa no quarto que é só seu, mas a vida se encarrega de te dar alguns. Geralmente poucos, mas bons. Ah, sim: dizer “termos” para “algumas pessoas” é silepse de pessoa, então está certo, antes que digam que um sujeito da Letras cometeu uma gafe no discurso.

Mas do jeito que eu estou indo parece que não tem disso, dessa amizade toda, na Letras, o que seria uma mentira. Minha mãe sempre me disse que seria na faculdade que eu faria os amigos que eu levaria comigo para a vida, e ela tem razão. Do mesmo modo como fiz amigos no colegial que tenho o prazer de ver aqui hoje, sei que fiz amigos na faculdade que vou ver em outras ocasiões tão especiais quanto esta de hoje, por menos que pareçam. Afinal de contas, sentar num boteco pra bater papo e tomar cerveja não tem o glamour de uma formatura, mas ainda assim vai ser um daqueles momentos especiais pra quem estiver lá. E não precisa nem ser o Rei das Batidas depois a aula, ou mesmo durante ela. Tivemos, sim, momentos que uniram os alunos, e em que nos mostramos amigos. Quem não se lembra do desespero antes de uma prova de Estudos Clássicos na biblioteca? Prova de Latim sem dicionário, em duplas de oito ou dez? Com o perdão da palavra, quando a água batia na bunda, a gente descobria que conhecia e gostava mais das pessoas do que achávamos, e isso muitas vezes não se restringia a provas ou trabalhos. Trabalhos estes, aliás, que muitas vezes pegávamos emprestados para dar uma olhada e tirar algumas idéias, mas isso SEMPRE depois que já tínhamos entregue os nossos, é claro, nada de cópia. Imaginem, alunos da USP fazendo isso? Nunca! Muitas vezes, um bandeijão (para os mais corajosos) ou mesmo uma matada de aula pra bater papo já mostravam que há, sim, camaradagem e amizade na Letras, e que isso podia sair do nosso prédio. Pode ir até ao Rio de Janeiro, ou até o buraco do Metrô.

Posso falar por experiência pessoal que eu tenho, sim, gente aqui em quem eu confio e de quem eu gosto muito. A gente vê essa importância que temos para alguém talvez da forma mais dolorosa, magoando e sendo magoado, mas isso faz parte de todo o aprendizado que temos juntamente com as tais análises e as línguas. Podemos ver que temos com quem nos abrir e matar aula pra jogar truco, conversar sobre literatura e problemas com o namorado ou namorada, dividir alegrias e incertezas, acadêmicas ou não, além dos tais trabalhos sobre que já falei. E ter feito parte da comissão de formatura, apesar de todo o trabalho que nos deu, valeu principalmente por isso: por conhecer essas pessoas, que poderiam ter passado batidas, sem que parássemos pra trocar um “oi” e acabar conversando sobre o futuro, ou até mesmo rolando no barranco levemente alterados. Confesso que o sentimento que pairou no ar pra mim foi muito bem expresso por uma colega, dizendo “como que a gente não se conheceu antes?”. Pois é, foi preciso a gente quebrar a cabeça, pagar mico entrando de sala em sala, ter dor de cabeça depois de reuniões de 5 horas sem almoço e passar dias respondendo e-mail pra poder ouvir uma dessas. Digo mais: mesmo essa parte chata da coisa toda foi amenizada por saber que estava entre os bons amigos que fiz na comissão, mesmo com um bate-boca ou outro.

O que mais me alegra de estar aqui hoje, além de ter uma visão de que a faculdade acabou,- e que por isso podemos ir para celas especiais antes do julgamento -, por mais que a gente goste dela e o suspense vai até o diploma chegar, é ver todo mundo junto. Acho que é a primeira vez, aliás, que conseguimos colocar todos os formandos juntos, e olha que é sábado de manhã. E ver esse pessoal todo me faz ver, finalmente, uma turma de formandos, que lutou por anos até chegar aqui. “Lutou”, porque pegar ônibus lotado, encarar sala entupida de gente sem ventilação, livro que fazia a gente espirrar de tão antigo, encarar fila no xérox, fila na Seção de Alunos e agora há pouco fila até pra beca, não são coisas pra qualquer um. Mas, estamos aqui, e por isso eu dou os parabéns para todos nós, porque passamos por cima de muita coisa, começando talvez até em casa, e seguindo pela sociedade e pelo mercado, mas eu não vou entrar num discurso que seria rotulado como algo “típico da FFLCH”. O fato é que chegamos aqui graças, em grande parte, a essas pessoas, em especial a todos aqueles que compartilharam da mesma via crucis.

Gostaria de fechar com uma citação. Tentei fugir do lugar comum de achar algum escritor, como se espera da nossa faculdade, mas mesmo assim foi difícil, então acabei por seguir à risca minha sina de Letras: fecho com um escritor, Albert Camus, argelino ganhador do prêmio Nobel. Cai como uma luva e vocês, colegas, amigos, saibam que eu as digo com sinceridade, pois ela reflete muito bem aquilo por que passamos. Diz ele:

“Não caminhe na minha frente, eu não posso seguir. Não caminhe atrás de mim, eu não posso conduzir. Apenas caminhe ao meu lado, e seja meu amigo”.

Espero que eu tenha sido para vocês o que eu sei que vocês foram pra mim, e por isso eu os agradeço de coração, com a esperança de ainda possamos caminhar juntos bastante.

Obrigado.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Se tem filmes que te dão um "soco", esse leva a nocaute; é com certeza o filme-fábula mais triste e mais bonito que já vi. Às vezes ter a chance de almoçar em casa, ter o DVD e poder rever uma coisa assim compensa ficar em casa no carnaval, ter que pagar uma paulada no cartão e gostar de ver filmes sozinho. E o melhor de tudo é ver o que vem depois disso, já que as últimas cenas, do corredor e da praia, são de uma simplicidade e de uma beleza quase incomparáveis.

* * *

Joel: [In the house on the beach] I really should go! I've gotta catch my ride.
Clementine: So go.
Joel: I did. I thought maybe you were a nut... but you were exciting.
Clementine: I wish you had stayed.
Joel: I wish I had stayed too. NOW I wish I had stayed. I wish I had done a lot of things. I wish I had... I wish I had stayed. I do.
Clementine: Well I came back downstairs and you were gone!
Joel: I walked out, I walked out the door!
Clementine: Why?
Joel: I don't know. I felt like I was a scared little kid, I was like... it was above my head, I don't know.
Clementine: You were scared?
Joel: Yeah. I thought you knew that about me. I ran back to the bonfire, trying to outrun my humiliation, I think.
Clementine: Was it something I said?
Joel: Yeah, you said "so go." With such disdain, you know?
Clementine: Oh, I'm sorry.
Joel: It's okay.
[Running Out]
Clementine: Joely? What if you stayed this time?
Joel: I walked out the door. There's no memory left.
Clementine: Come back and make up a good-bye at least. Let's pretend we had one.
[Joel comes back]
Clementine: Bye, Joel.
Joel: I love you...
Clementine: Meet me... in Montauk...